A wiki está cheia e ninguém acha nada

Toda organização com alguma idade tem isso. Anos de relatos, produzidos com cuidado, arquivados direitinho, e funcionalmente invisíveis. As pessoas resolvem o mesmo problema duas vezes e descobrem o relato anterior depois, por acaso, procurando outra coisa.

A conclusão habitual é que as pessoas deveriam pesquisar melhor, ou que a wiki precisa ser reorganizada. Nenhuma das duas é o problema.

O conhecimento foi escrito por alguém que sabia a causa. Está sendo procurado por alguém que só tem o sintoma — e o sintoma é a única coisa com que o documento não foi titulado, indexado, nem escrito na linguagem dela.

O que quem procura de fato tem

No momento da necessidade, às três da manhã, quem procura tem em mãos:

  • uma mensagem de erro, exatamente como apareceu, que a pessoa vai colar
  • um sintoma nas palavras dela"pagamentos falhando de vez em quando"
  • possivelmente um nome de fabricante ou produto
  • um padrão de horário"só de manhã", "desde o fim de semana"

E não tem: a causa, porque é o que está procurando; o codinome interno do seu projeto; o número do chamado; o nome de quem escreveu; nem o vocabulário que o relato usou depois que a causa já era conhecida.

Quase toda convenção de arquivamento em uso indexa pela segunda lista.

Três mudanças que fazem a maior parte do trabalho

Titule pelo sintoma, não pela causa. "Flap de membro de pool no BIG-IP — RCA 4417" é encontrável por quem já sabe a resposta. "5xx intermitente no caminho de pagamento, some sozinho em poucos minutos" é encontrável por quem não sabe. A causa entra na primeira linha do corpo, que é o lugar dela.

Inclua a mensagem de erro literal. Exatamente como o sistema emite, pontuação e tudo, mesmo que seja feia e mesmo que você a tenha parafraseado no resto do documento. As pessoas colam mensagens de erro na busca, e paráfrase não casa.

Escreva o sintoma na linguagem de quem reportou, além da sua. O usuário disse "o site está lento"; você determinou que era latência de handshake TLS num membro do pool. Os dois pertencem ao documento, porque a próxima ocorrência também vai chegar como "o site está lento".

Uma página por falha, não uma página por ocorrência

A falha estrutural mais comum depois do título: cinco relatos separados do mesmo problema recorrente, escritos com meses de distância por pessoas diferentes, nenhum ligado ao outro, cada um redescobrindo o mesmo mecanismo.

A correção é uma regra, não uma ferramenta: uma falha recorrente ganha uma página viva, atualizada a cada ocorrência, com as datas listadas. Os registros individuais continuam existindo para a trilha de auditoria; o conhecimento mora num lugar só.

Essa página também vira a base de evidência de prevenção que sobrevive ao orçamento"é a quarta ocorrência, aqui estão as datas" é um argumento, enquanto quatro chamados soltos são uma coincidência.

Onde mora vale mais que quão bom é

Um relato excelente num sistema que ninguém pesquisa durante incidentes vale menos que um relato mediano ao lado dos runbooks.

O teste é comportamental, não arquitetural: onde alguém de fato olha às três da manhã? Seja o que for — a pasta de runbooks, a busca do chat, o sistema de chamados — é ali que o conhecimento pertence, mesmo que exista uma plataforma melhor e sem uso. Migrar o hábito das pessoas é um projeto; colocar o documento onde o hábito já vai é uma tarde.

Conhecimento apodrece em ritmos diferentes

Vale separar na hora de escrever, porque decide o que compensa manter:

  • Detalhe específico de produto — comandos, nomes de tela, comportamento preso à versão. Apodrece rápido, e um comando desatualizado é pior que nenhum, porque falha de um jeito que custa tempo.
  • O mecanismo — por que essa classe de falha acontece. Apodrece devagar e sobrevive a trocas de plataforma.
  • O caminho diagnóstico — como você estreitou. Mais devagar ainda, e é o que torna competente um leitor que não conhece o ambiente.

Date explicitamente as partes que apodrecem rápido e deixe o resto sustentar o documento. Uma página cujos comandos estão marcados como válidos na versão 15.1 envelhece com honestidade; uma que os apresenta como atemporais envelhece virando armadilha.

O teste de encontrabilidade

Antes de arquivar, peça a alguém que não participou para achar aquilo — com apenas o sintoma, nas palavras que um usuário usaria, na ferramenta que essa pessoa normalmente pesquisa:

  1. Ela acharia? Se não, o título foi escrito a partir da resposta.
  2. Ela reconheceria como sendo o caso dela nas duas primeiras linhas? Se a abertura descreve a causa, não dá para saber se bate com a situação dela.
  3. O documento contém a mensagem de erro literal?
  4. Existe uma página para esta falha, ou várias?
  5. O material preso à versão está datado?

Cinco perguntas, dois minutos, e são a diferença entre conhecimento capturado e conhecimento armazenado.