O que apodrece, e com que velocidade
O serviço voltou. É tarde, todo mundo está cansado, e o relato fica para amanhã — decisão razoável, tomada por pessoas razoáveis, e mais cara do que parece.
O que sobrevive sozinho é a resposta. O chamado tem, o registro de mudança tem, três pessoas sabem de cor. Essa parte não precisa de você.
O que evapora é o caminho. Na tarde seguinte você ainda diz qual era a falha e já não diz com confiança:
- o que você achou que era nos primeiros quarenta minutos, e por que aquilo era razoável
- o que você descartou, e com que evidência
- qual observação fez você mudar de direção
- o que você tentou e não fez nada
- o que você quase fez e decidiu não fazer
Cada um desses é mais útil à próxima pessoa que a resposta, porque a próxima pessoa vai chegar ao mesmo sintoma e começar de onde você começou. Entregar a conclusão poupa os últimos dez minutos dela. Entregar os becos sem saída poupa as primeiras três horas.
A narrativa limpa é a versão inútil
O instinto ao escrever é produzir um relato arrumado: sintoma, investigação, causa, correção. Lê-se bem, sobrevive a ser encaminhado, e dele foi removido exatamente o material que teria ajudado.
Uma narrativa arrumada sugere que o caminho foi direto. Nunca foi. Alguém gastou noventa minutos numa teoria que se mostrou errada, e esses noventa minutos são a coisa mais transferível do incidente inteiro — porque a teoria era plausível, o que significa que a próxima pessoa também vai tê-la.
Escreva os becos sem saída. "Gastamos noventa minutos no firewall porque o horário batia com uma publicação de política; não era o firewall, e foi isto que descartou" é o parágrafo que ninguém escreve e todo mundo precisa. Parece confissão. É mapa.
Observações, não vereditos
A mesma disciplina da aceitação, e pelo mesmo motivo: conclusão é o julgamento de alguém naquela noite; medição é evidência por tempo indeterminado.
"A CPU estava alta" apodrece e vira discussão. "A CPU do plano de controle ficou em 94% das 02h10 às 02h48, e voltou a 30% um minuto depois da comutação" continua utilizável daqui a um ano, por alguém que discorda da sua conclusão e precisa do dado assim mesmo.
Registre o que você viu, com horários. Deixe a conclusão numa frase separada, que possa ser revista sem mexer na evidência.
Dois leitores, dois documentos
Eles querem coisas opostas, e misturar produz um documento que não serve a nenhum dos dois.
A gestão precisa de: o que quebrou, quem foi afetado, por quanto tempo, o que impede a repetição, quanto vai custar. Curto, e escrito para sobreviver a quem só vai ler o primeiro parágrafo.
A próxima pessoa técnica precisa de: o sintoma como apareceu, o caminho, os becos sem saída, as observações com horário, e o que segue sem explicação.
Mantenha os dois como duas seções com títulos honestos, em vez de um documento tentando ser os dois. O modo de falha da mistura é que os becos sem saída são cortados — parecem incompetência para o primeiro público e são o valor inteiro para o segundo.
O que segue desconhecido pertence ao papel
A seção mais forte e menos comum: o que este relato não consegue explicar.
A falha parou antes de a causa ser encontrada. O segundo site nunca foi afetado e ninguém sabe por quê. A mudança que disparou aquilo não deveria ser capaz de disparar. Registrar isso é o que torna o documento honesto — e, mais praticamente, é o que permite que a próxima ocorrência seja reconhecida como repetição em vez de tratada como nova. Um incidente que parou antes de alguém achar e foi relatado como resolvido será encontrado uma segunda vez por alguém começando do zero.
Escreva o esqueleto antes de dormir
A versão realista do conselho, porque "escreva hoje à noite" perde para o cansaço sempre, e deve perder.
Dez minutos, antes de dormir, nas partes que apodrecem: os horários, os becos sem saída, o que ficou sem explicação. A prosa pode esperar; esses três não. Todo o resto se reconstrói amanhã pelo chamado, pelo registro de mudança e pelos gráficos.
O esqueleto
Preenchível às quatro da manhã, em qualquer ordem, em fragmentos:
- Sintoma como foi reportado — nas palavras de quem reportou, antes de alguém reenquadrar
- Horários — primeiro sintoma, detecção, cada mudança de direção, mitigação, verificação
- O que achamos que era, em ordem — e o que nos tirou de cada hipótese
- Descartado — e a evidência que descartou, não a conclusão
- Tentado e sem efeito — a lista de maior valor e a primeira cortada de um relato arrumado
- O que mudamos — incluindo qualquer coisa temporária ainda no ar
- Ainda sem explicação
- Por onde eu começaria da próxima vez
Essa última linha leva quinze segundos e é a frase mais útil do documento, porque é a única escrita por quem acabou de fazer o trabalho, e não por quem leu sobre ele depois.