O documento que existe e não funciona
Todo parque tem. Uma pasta de procedimentos, escritos durante o projeto, aprovados por alguém, nunca abertos. Quando enfim chega o incidente que um deles cobre, quem está de plantão abre, lê dois passos e vai procurar alguém que saiba.
O diagnóstico habitual é que está desatualizado, e o remédio habitual é um ciclo de revisão que ninguém sustenta. Os dois erram o alvo. A maioria dos runbooks inúteis já era inútil no dia em que foi escrita, e a desatualização apenas terminou o serviço.
Escrito pela pessoa errada, no momento errado, para o leitor errado
Os três defeitos se somam, e nenhum deles é desleixo.
A pessoa errada. O runbook é escrito por quem construiu a coisa — a única pessoa da organização que nunca vai precisar dele. Ela não enxerga o que sabe. Todo passo que lhe parece óbvio é invisível justamente por ser óbvio, e a dificuldade do leitor está exatamente nesses passos.
O momento errado. É escrito no fim do projeto, quando o entendimento está no pico e o interesse no chão. O que fica registrado é o formato do procedimento, porque o formato é o que está na cabeça. Os específicos — qual dos quatro consoles, qual credencial, qual das duas coisas chamadas primária — são sabidos com tanta folga que não se apresentam como fatos dignos de registro.
O leitor errado. O leitor imaginado é um colega competente, na mesa dele, sem pressa. O leitor real foi acordado às 3h40, está num sistema que nunca tocou, com um gestor pedindo atualização a cada dez minutos. Esses dois leitores precisam de documentos diferentes, e só um deles foi atendido.
A falha específica que o leitor errado produz
Um especialista sem pressa lê um passo e reconstrói a intenção. Um estranho cansado lê o mesmo passo e precisa que ele seja inequívoco, porque não tem base para reconstruir nem disposição para adivinhar às 3h40.
Então os passos que falham nunca são os complicados. São os que presumem:
- Qual sistema. "Acesse o console de gerência" — são três, e dois vão aceitar o login.
- Qual nome. "Comute para o equipamento em espera" — ele é
-02num lugar e-bem outro, e um desses é outro par inteiro. - O que o leitor deve ver. Um passo que diz o que fazer e não diz o que acontece quando dá certo deixa o leitor incapaz de distinguir sucesso de silêncio.
- Se é seguro. O autor sabe que este comando é somente leitura e aquele não. O leitor não sabe, e vai travar ou descobrir na prática.
O teste de leitura fria
A correção inteira, e custa uma hora.
Entregue o runbook a alguém que nunca tocou o sistema e observe a pessoa tentando seguir. Não ajude. Anote todo lugar em que ela para, pergunta ou chuta. Esses são os defeitos, e não há outro jeito confiável de encontrá-los, porque o autor não consegue gerar essa lista relendo — ele vai reconstruir cada lacuna sem perceber.
Duas regras fazem funcionar. O leitor precisa ser genuinamente leigo naquilo, não um colega educado que já meio sabe. E o autor precisa ficar calado, que é a parte difícil: cada pergunta respondida é um defeito consertado na sala e deixado no documento.
Rode antes de precisar e custa uma hora de duas pessoas. Rode durante o incidente e o custo é o incidente.
O que um passo precisa dizer
Quatro coisas, e um passo sem qualquer uma delas é onde a leitura fria para:
- Onde — o sistema exato, pelo nome que ele exibe de si mesmo, não pelo papel
- O que fazer — uma ação, nas palavras que a interface usa
- O que você deve ver — a observação que significa que funcionou
- O que significa se você não vir — vá para o passo 9, ou pare e escale
O quarto item é o que transforma um procedimento em algo utilizável sob pressão. Um runbook que só descreve o caminho de sucesso presume que o leitor vai improvisar exatamente no momento em que improvisar é mais caro — e um passo sem ramo de falha é a razão de o leitor parar e ir procurar alguém.
Duas coisas menores que decidem se ele será aberto
Diga para que serve o procedimento, no topo, nos termos do leitor. Não "procedimento de manutenção de alta disponibilidade do BIG-IP", e sim "use isto quando o primário está no ar mas não passa tráfego, e você precisa do serviço de volta antes de entender por quê." As pessoas buscam por sintoma, não por subsistema, e um título em vocabulário de sistema é invisível para quem só tem um sintoma.
Diga o que ele não cobre. Uma linha nomeando a situação vizinha para a qual ele não serve evita o pior resultado possível — um leitor seguindo um procedimento correto para o problema errado, com confiança, enquanto a falha real continua.
Por que o ciclo de revisão não resolve
Revisões agendadas falham porque são lidas pelo autor, que não enxerga as lacunas, e porque nada confronta o documento com a realidade.
Duas coisas de fato mantêm um runbook vivo, e as duas são de graça. Toda vez que alguém usa um durante um incidente, edita com ele aberto — o ponto de conhecimento máximo sobre onde ele está errado. E toda vez que um procedimento é executado de verdade, se funcionou vale uma linha no registro do incidente, que é o mesmo instinto do registro de aceitação: capturar a observação enquanto ainda há alguém sendo pago para tê-la.