O que é uma cena, e por que a brasileira é diferente
Uma cena é a versão local de uma cultura: as pessoas, os pontos de encontro, a história compartilhada e as discussões que fazem do hacking uma comunidade num país específico, e não um hobby praticado sozinho. Cenas diferem pelo que se organizaram em torno, e essas diferenças duram. O underground americano se formou em turmas rivais e foi moldado pela persecução. O alemão se organizou como associação formal e virou uma oposição técnica com assento diante do tribunal constitucional.
O Brasil se organizou em torno do acesso.
A origem: uma rede construída por uma ONG
O primeiro serviço público de internet do país não foi comercial nem acadêmico. O Alternex era tocado pelo IBASE, o instituto de pesquisa social fundado por Betinho, Marcos Arruda e Carlos Afonso - e atendeu organizações não governamentais antes de qualquer outra coisa. Sua prova pública veio na Rio-92, quando carregou correio eletrônico para os participantes da conferência sobre infraestrutura montada com a recém-nascida RNP.
Esse fato fundador ainda tinge tudo. A cena brasileira nunca tratou o acesso à rede como encanamento politicamente neutro, porque quem construiu o primeiro acesso do país estava explicitamente fazendo política. É também por isso que a governança acabou incomum: o registro de domínios, o time de resposta a incidentes e os pontos de troca ficam todos sob um comitê multissetorial com assentos de sociedade civil, e não dentro de um ministério.
Os anos de BBS, e o underground de fraude
Nos anos noventa a cena cresceu onde toda cena cresceu - BBSs discadas, laboratórios universitários, canais de IRC -, com a variação local de que ligação interurbana era cara e a rede telefônica era monopólio estatal, então o phreaking tinha motivo econômico forte.
Depois o Brasil produziu algo que o resto do mundo acabou tendo de estudar: uma cultura de fraude online em escala industrial. O país bancarizou online cedo e com entusiasmo, o que criou ao mesmo tempo o alvo e a expertise. O underground de cartão e banco do início dos anos 2000 - dramatizado no filme de 2026 O Rei da Internet - amadureceu nas famílias de trojan bancário que pesquisadores acabaram batizando de Tetrade quando se internacionalizaram.
Esta é a metade incômoda da história e não deve ser suavizada: por duas décadas, "brasileiro" num relatório de malware costumava significar fraude bancária. Mas as mesmas condições construíram a expertise defensiva - os pesquisadores do país ficaram de classe mundial exatamente naquilo que acontecia com eles, e é por isso que nomes brasileiros aparecem de forma desproporcional na análise de malware bancário.
Quem construiu
O lado defensivo da cena tem nomes que valem conhecer. O chkrootkit, escrito em 1997 por Nelson Murilo e Klaus Steding-Jessen, é provavelmente o software de segurança mais implantado já escrito no Brasil - empacotado por praticamente toda distribuição Linux. Cristine Hoepers toca o CERT.br desde o fim dos anos noventa e entrou para o hall da fama de resposta a incidentes do FIRST. Rodrigo Rubira Branco mostrou que pesquisa de vulnerabilidade de baixo nível podia ser feita daqui e levada a sério em qualquer lugar.
E a cena tem tecido conjuntivo: Anchises Moraes - cofundador do Garoa Hacker Clube, o primeiro hackerspace do país, fundador da , e blogueiro que documenta o calendário local ano a ano há duas décadas. Toda cena precisa de alguém que guarde o registro e apresente as pessoas umas às outras; comunidades se sustentam muito mais nesse trabalho do que em qualquer achado técnico isolado.
Como está agora
Densa, e incomumente equilibrada entre suas pontas.
O H2HC (São Paulo, desde 2004) é a âncora de pesquisa profunda e a conferência de pesquisa em segurança mais antiga da América Latina - e acaba de sobreviver ao teste mais duro que uma instituição voluntária enfrenta, quando Rodrigo Branco saiu depois de vinte e um anos e Filipe Balestra assumiu.
O YSTS é o instinto oposto: só por convite, um dia, pequeno o bastante para que diretores de segurança e hackers de fato discutam entre si.
A BSides São Paulo — edição local do circuito global BSides — é a resposta ao ser fechado - gratuita, tocada pela comunidade, realizada no fim de semana anterior, e hoje o maior evento gratuito de segurança do país. Esse par é o movimento mais característico da cena: quando aparece algo exclusivo, alguém constrói uma contraparte aberta ao lado, em vez de reclamar da porta.
O RoadSec roda as capitais para o país não ter de viajar até São Paulo. O Mind the Sec atende o mercado corporativo. Os hackerspaces - Garoa em São Paulo, LHC em Campinas e outros - seguram a comunidade física do ano inteiro, que conferência nenhuma segura. E o Latinoware mantém a tradição do software livre, que no Brasil sempre foi politicamente vizinha da hacker.
A avaliação honesta
As forças são reais: uma cena com instituições próprias, um modelo de governança aberto que outros países estudam, expertise profunda em fraude financeira e em defesa, e um calendário que dá a quem chega um lugar para ir na maioria dos meses do ano.
As fraquezas também são reais. Quase tudo roda sobre voluntários com emprego integral, o que faz da sucessão o risco permanente. A comunidade de pesquisa está concentrada no eixo São Paulo-Campinas, e um país deste tamanho não deveria ter um centro só. Boa parte do melhor trabalho local é publicada em português e portanto invisível ao campo internacional - barreira de língua que a cena escolheu, por boas razões, e paga assim mesmo.
A resposta da própria cena para as três tem sido a mesma há trinta anos: construir a coisa aberta ao lado da coisa fechada, e escrever quem fez o quê. Este site é, em parte, uma instância desse hábito.