Todo diagrama de rede tem uma borda sem graça, onde o mundo da operadora encosta na parede do cliente. Essa borda, a última milha (last mile), sempre foi o trecho de infraestrutura mais difícil, mais caro e mais reinventado da história das telecomunicações. O núcleo da rede ganhou fibra cedo; a última milha ficou com o que já estava enterrado. Este artigo percorre as quatro reinvenções dela, a partir do ponto onde começa a história deste site: São Paulo, 1999, uma linha de 256 kbps que mudou tudo, menos os próprios fios.

POTS: uma rede feita para uma conversa de cada vez

O (Plain Old Telephone Service), a boa e velha telefonia fixa, foi um triunfo de engenharia otimizado para uma única tarefa: levar a voz, mais ou menos na faixa de 300 a 3400 Hz, por um par metálico trançado, com o circuito dedicado durante toda a chamada. Essa última característica definiu a experiência dos primeiros anos da internet: os modems discados espremiam dados pela banda de voz num esforço heroico (chegando a uns 56 kbps), mas a conexão só existia enquanto a "chamada" existisse. A linha ficava ocupada, muitas vezes os pulsos iam sendo cobrados, e estar online era um evento. O próprio autor passou por todos os degraus dessa escada: um Microdigital TK82-C em 1984 e, em 1991, aos quinze anos e já montando e vendendo PCs, sysop de uma BBS, o que significava ser o destino daquelas chamadas discadas, um usuário de cada vez, num único circuito POTS. Depois vieram a internet acadêmica em 1993, a internet comercial em 1995 e o primeiro emprego corporativo, em 1996, como engenheiro de redes de campo na Cabletron Systems, a pioneira do switching . Naquela época, o problema de localizar alguém se resolvia de outro jeito, com pagers: mensagens assíncronas, repassadas por uma telefonista e nada parecidas com tempo real.

ADSL: o mesmo cobre, agora em tempo integral

A primeira reinvenção foi um truque de frequência. O (Asymmetric Digital Subscriber Line) partiu da observação de que o par de cobre aguentava muito mais espectro do que a banda de voz usa, e dividiu esse espectro: a voz fica abaixo de ~4 kHz, os dados trafegam nas frequências acima, e um filtro impede que um interfira no outro. As consequências foram maiores que a velocidade. O canal de dados ficava sempre ativo (always on): sem discar, sem linha ocupada, sem cobrança por minuto. E o modem não falava mais com outro modem do outro lado de uma ligação; ele terminava num na central telefônica. Em São Paulo, a Telesp, recém-privatizada e passada às mãos da Telefónica em 1998, lançou o ADSL com o nome Speedy em 1999, e o autor esteve entre os primeiros assinantes: 256 kbps no mesmo par metálico que a casa sempre teve, usado continuamente pela primeira vez. A revolução foi essa continuidade, não a taxa de bits; e foi também, como diriam os títulos dos obituários da época, o começo definitivo do fim do POTS. Uma nota operacional daquele mundo ainda causa dor de cabeça hoje: as implantações de ADSL costumavam encapsular o tráfego em , cujos headers (cabeçalhos) extras são um motivo clássico para as contas de MTU pegarem as pessoas de surpresa.

DOCSIS sobre HFC: a segunda vida da rede de TV a cabo

A segunda reinvenção veio do outro fio que entra na casa. A TV a cabo tinha construído redes (Hybrid Fiber-Coaxial), híbridas de fibra e coaxial: fibra do headend até os nós de cada bairro, coaxial no trecho final até a casa, numa árvore de broadcast com um espectro enorme no sentido de descida (downstream). O (Data Over Cable Service Interface Specification), a família de padrões da CableLabs, transformou essa árvore numa rede de banda larga: canais de downstream compartilhados pelo bairro, upstream (subida) concedido pelo scheduler do , e cada nova geração ampliando os dois. O DOCSIS 3.1 trouxe canais baseados em OFDM e capacidade de downstream multigigabit para o mesmo coaxial, e é por isso que uma casa cabeada na época da TV analógica consegue receber serviço gigabit hoje sem trocar o cabo drop.

FTTH e a casa atendida de quatro jeitos

A terceira reinvenção para de reaproveitar e passa a substituir: o (Fiber To The Home), fibra até a casa, leva fibra óptica pela última milha inteira, normalmente como uma rede óptica passiva que divide uma fibra alimentadora entre dezenas de casas. A fibra oferece uma folga de banda e de latência que as tecnologias metálicas só conseguem imitar forçando os limites da física. E a quarta reinvenção dispensa o chão de vez. A imagem final é a âncora deste artigo: a mesma casa que recebeu aquele circuito ADSL de 1999 hoje pode ser atendida por DOCSIS 3.1 sobre HFC, por FTTH e por uma constelação de satélites em órbita baixa. São quatro últimas milhas, três meios físicos, um só endereço, e o par de cobre que começou tudo finalmente pode descansar.

Fontes

As gerações de cabo e fibra citadas acima têm cada uma um organismo de normalização por trás, portanto as afirmações de capacidade podem ser conferidas na fonte, não no marketing de uma operadora.