Todas as épocas

Antes de 1996

A curiosidade

Rádio amador, um Sinclair clonado, os BBSs, um tom de discagem roubado e a primeira internet acadêmica — todo o aprendizado, antes de qualquer coisa virar profissão.

Toda carreira técnica tem um antes. Antes dos crachás de fabricante e das certificações, havia um adolescente que precisava entender como tudo funcionava — e que perseguiu essa necessidade pelas ondas de rádio, pelos micros clonados, pelas linhas telefônicas e pela internet mais antiga. É aqui que se formou o instinto que move todo o resto. As técnicas desta página pertencem a um mundo que já não existe: a rede telefônica analógica, o orelhão a ficha e o BBS de linha única desapareceram, e é justamente por isso que a história pode ser contada sem rodeios.

Como tudo aconteceu

Cerca de uma década, do primeiro computador ao primeiro contracheque.

  1. 1975São Paulo, BrasilRodolfo nasce, filho de pai brasileiro — engenheiro civil, neto de imigrantes portugueses, italianos e árabes — e de mãe nascida na Alemanha, bacharel em Belas Artes, que se mudou para o Brasil com os pais e a irmã aos doze anos. Foi sobretudo a avó materna quem lhe ensinou a olhar o universo e a natureza com curiosidade e encantamento; não fossem os computadores, ele provavelmente teria seguido o caminho da ciência.
  2. 1984Primeiro computador · Microdigital TK-82CUm clone brasileiro do ZX81 da Sinclair, primeiro carregado da fita cassete pelo pai na TV da família — e logo programado em BASIC pelo próprio Rodolfo.
  3. fim dos anos 1980Rádio amador · indicativo do pai e cartões QSLO mundo do pai: um engenheiro e radioamador dedicado operando as faixas locais e de longa distância, com cartões QSL chegando de desconhecidos a um continente de distância para provar um contato feito pelas ondas do ar.
  4. 1991Sysop e montador autodidataRodar um BBS em uma única linha telefônica; importar peças dos Estados Unidos e montar PCs sob medida para vender.
  5. 1991A internet acadêmica · shells UNIXPor uma universidade, por um modem, até um prompt de texto em uma máquina sem centro e sem dono. O mundo fechado da discagem se abriu para o planeta.
  6. início dos anos 1990Phreaking, blue boxes, war-dialingO telefone público a ficha e o truque da água no slot; blue-boxing de troncos de operadora até os boards da "scene" na Europa; e PBXs corporativos encontrados por war-dialing, deixados de propósito intocados.
  7. 1993A World Wide Web · SLIP/PPP e NCSA MosaicUm programa compilado na própria conta shell transformava a sessão discada em um túnel SLIP/PPP — e, por ele, o NCSA Mosaic: o primeiro vislumbre da World Wide Web.
  8. 1995Primeiro cargo formal · INTELECTA (SEBRAE-SP)Um sistema de intercâmbio eletrônico de dados sobre Novell NetWare e PCBoard. O ponto em que hobby, ofício e profissão viraram uma coisa só.
  9. 1995–96Alcançável em trânsito · bip TeletrimPrimeira alcançabilidade longe de qualquer mesa: um pager unidirecional no serviço Teletrim de São Paulo. Quem ligava ditava a mensagem a uma operadora humana, que a digitava para o ar rumo ao bip no cinto — limitado, assíncrono, nada de tempo real, e revolucionário assim mesmo.

O aprendizado, em sete movimentos

01

Curiosidade e encantamento

Antes de qualquer máquina, houve uma professora. Sua avó — a mãe de sua mãe, que havia cruzado um oceano da Alemanha ao Brasil com a família e recomeçado o mundo — conversava com o menino, desde muito cedo, sobre tudo o que o mundo dela continha. O jardim da casa dela, com seus insetinhos e minhocas, suas flores e ervas daninhas, seus tomates, cenouras e morangos. O céu noturno cheio de estrelas, a vastidão do Universo e a consciência humana ali para contemplá-lo. Ela ensinou a ele que tudo isso responde à curiosidade com mais curiosidade, e que o encantamento não é coisa de criança a ser superada, mas um jeito de prestar atenção.

A lição pegou. Não fossem os computadores reivindicá-lo poucos anos depois, ele quase certamente teria seguido o caminho da ciência — a atração pelo como-as-coisas-funcionam já estava ali, instalada cedo e instalada fundo. As máquinas apenas deram um teclado àquela curiosidade.

02

Sinais no ar

Antes dos computadores, havia o rádio — e o rádio era do seu pai. Engenheiro fascinado por cada nova tecnologia e, na mesma medida, pelas pessoas que ela conectava, o pai de Rodolfo era um radioamador dedicado que operava as faixas locais e de longa distância. O rádio amador significava um indicativo licenciado, a disciplina seca do alfabeto fonético e a pequena cerimônia do cartão QSL: um cartão-postal de verdade que chegava pelo correio, enviado por um desconhecido do outro lado do mundo para confirmar que sim, naquela frequência, àquela hora, duas pessoas tinham se encontrado pelas ondas do ar.

A lição chegou cedo e nunca foi embora. Alguém com o equipamento certo podia alcançar um desconhecido a um continente de distância, e um cartão de verdade, físico, voltava para provar — e já existia toda uma irmandade mundial de gente que se importava, profundamente, com como um sinal viaja daqui até lá. Curiosidade pelo próprio meio, e uma comunidade global ao alcance de um quarto em São Paulo — cada capítulo seguinte é uma variação desse primeiro, e do homem que o mostrou primeiro.

03

Os micros nacionais

A primeira máquina chegou em casa do mesmo jeito que o rádio havia chegado: pelo pai. Um Rodolfo de nove anos observava, encantado, o pai carregar um programa no computador a partir de uma fita cassete comum e então fazer coisas acontecerem na tela do aparelho de televisão — que, naquela época, era o monitor que todo micro doméstico pegava emprestado da sala. Parecia mágica, e não demorou para que o observar virasse fazer.

A máquina em si era filha do seu tempo. Em 1984 o Brasil vivia sob a reserva de mercado, que proibia a importação de computadores para proteger uma indústria nacional, então as máquinas eram clones locais — o primeiro aqui um Microdigital TK-82C, um clone brasileiro do ZX81 da Sinclair, mais tarde acompanhado pelo TK90X, um clone do ZX Spectrum 48K.

Não havia disco rígido nem rede. Logo Rodolfo estava escrevendo seus próprios programas em BASIC, digitados à mão a partir das últimas páginas das revistas e gravados naquela mesma fita chiante; um teclado de membrana sob os dedos, a televisão ainda fazendo as vezes de monitor. Ele aprendeu BASIC porque não havia mais nada para fazer com aquilo, e no processo aprendeu a verdade sobre a qual o resto deste site é construído: um computador não é mágica. É uma máquina que faz exatamente, e apenas, o que você mandar.

04

Os anos de BBS

Em 1991 a linha telefônica havia se tornado a fronteira. Um bulletin board system — um BBS — era um computador no quarto de alguém, com um modem atendendo um telefone. Para visitar um deles você mandava o seu próprio modem discar o número e escutava as duas máquinas negociarem a conexão num estouro de chiado que todo dono de modem sabia cantarolar de cor.

Um visitante por vez. Se outra pessoa já estivesse conectada, você ouvia o sinal de ocupado e tentava de novo mais tarde. Lá dentro havia murais de mensagens, bibliotecas de arquivos, telas desenhadas em texto colorido ANSI e door games que se jogavam turno a turno contra todo mundo da cidade. Rodar um deles — aqui o software era o Oblivion/2 — significava ser anfitrião, moderador e técnico ao mesmo tempo.

E os BBSs não eram ilhas. A FidoNet costurava milhares deles: de madrugada cada BBS discava para os vizinhos e passava adiante um saco de mensagens que então saltava, de BBS em BBS, pelo país e pelo mundo até o amanhecer. Era o correio eletrônico antes do correio eletrônico — e tinha exatamente o formato que os cartões QSL haviam ensinado: uma mensagem encontrando um desconhecido, confirmada um pouco depois.

05

O jeito do jovem hacker

Se o BBS ensinava como as máquinas conversavam entre si, o phreaking fazia uma pergunta mais ousada: como funciona o próprio sistema telefônico — e dá para fazê-lo executar coisas para as quais nunca foi feito?

No Brasil o telefone público era o orelhão, e funcionava a fichas, aquelas peças que você comprava e enfiava no slot. O folclore de pátio de escola dizia que um pouco de água no slot da ficha causava um curto lá dentro e liberava um tom de discagem de graça; foi testado, mais de uma vez, e às vezes funcionava. Mas a porta de verdade era a que as velhas lendas descreviam: um único tom — os famosos 2600 Hz — que a rede de longa distância escutava como seu próprio sinal interno, e a blue box construída para devolver à rede a sua própria língua.

Essa porta foi usada, e muito. Uma blue box conseguia convencer a rede a entregar um tronco de longa distância como se a chamada fosse dela mesma, e o destino que importava era a Europa — os boards da "scene", o circuito internacional fechado de crackers, artistas e traders cujos BBSs eram inalcançáveis com qualquer orçamento que um adolescente em São Paulo tivesse. O war-dialing mapeava a metade mais silenciosa da rede: um modem solto para varrer faixas inteiras de números durante a madrugada e anotar o que respondia — um modem do outro lado, um fax, ou o tom característico de um PBX corporativo. Alguns desses PBXs podiam ser convencidos a liberar uma linha externa.

Esses ficavam intocados, e a razão era toda a ética em miniatura. Tomar um tronco a partir da própria sinalização da companhia telefônica não colocava o custo em lugar nenhum — nenhuma conta, nenhuma fatura, ninguém era cobrado. Fazer o PBX de uma empresa de verdade completar a ligação cairia na conta daquela empresa, e essa era a linha que não se cruzava. O único esquema que ficou só no sonho — um modem emendado direto na fiação de um orelhão — ficou no sonho. Nada do resto era por dinheiro; era a intoxicação pura de entender um sistema bem o bastante para enxergar as costuras, e ser jovem o suficiente para forçá-las. A rede analógica onde tudo isso vivia acabou faz décadas, seus tons de sinalização aposentados há muito, que é a razão honesta pela qual isto pode ser registrado aqui como história, e não como instrução.

Aquele sonho tinha agenda própria. Na versão do adolescente, ele tinha uma forma: um 386DX40 avantajado, um monitor CRT de 14 polegadas, um modem e uma linha telefônica — ou seja, acesso ao conhecimento do mundo inteiro, desde que o mundo ficasse ao alcance da escrivaninha. Dezessete anos depois, segurando um dos primeiros iPhones pouco depois do lançamento — com jailbreak para rodar os aplicativos que uma comunidade construía para si mesma — ele sentiu na hora: o sonho recorrente do garoto de quatorze anos de 1990, realizado — e agora portátil, tudo aquilo possível em qualquer lugar, na palma da mão.

06

A internet acadêmica

O mundo dos BBSs era uma cidade. A internet era o planeta. Em 1991 ela chegou por uma universidade, por um modem, como um simples prompt de texto em uma máquina UNIX que ela mesma conversava com milhares de outras — sem centro, sem dono, sem horário de fechar.

A conta era uma conta shell — nada de SLIP ou PPP levando tráfego de internet de verdade pela linha telefônica; só um prompt e um cardápio de ferramentas de nomes estranhos: Gopher, Archie, IRC. E bastava. Na primeira vez em que um comando digitado em São Paulo se estendeu e puxou um arquivo de uma máquina em outro continente, os muros do jardim da discagem simplesmente caíram.

A porta também tinha um nome: aandrade, uma conta nos servidores UNIX da USP — a Universidade de São Paulo — cujo acesso, como era o costume entre os entusiastas de então, passava de mão em mão como uma chave copiada discretamente para os amigos. Só anos depois ele descobriu quantas das pessoas que conheceu naquela época tinham entrado pela mesma conta. Então, com três décadas de atraso e um sorriso: obrigado, aandrade, por manter aberta, sem saber, para toda uma geração de jovens exploradores, uma das primeiras portas para o mundo.

Então, em 1993, a conta shell virou uma porta por conta própria. Nela ele compilou um programa que, executado, transformava a própria sessão discada em um túnel SLIP/PPP — a linha de terminal silenciosamente virando uma conexão de internet de verdade — e por esse túnel abriu o NCSA Mosaic para o seu primeiro vislumbre da World Wide Web. O formato dos trinta anos seguintes apareceu inteiro de uma vez.

07

Do hobby ao ofício

Em algum ponto desses mesmos anos a curiosidade começou a pagar. A partir de 1991 o trabalho era prático e autônomo: importar componentes dos Estados Unidos, montar PCs sob medida e vendê-los, depois instalá-los e resolver seus problemas para quem precisasse — DOS e CP/M, Turbo Pascal, e os bancos de dados Clipper e dBase que silenciosamente rodavam os pequenos negócios da época.

Em 1995 tudo convergiu para um primeiro cargo formal na INTELECTA, uma empresa incubada pelo SEBRAE-SP. O projeto era um sistema de intercâmbio eletrônico de dados para a comercialização de suprimentos médicos e hospitalares, construído sobre servidores Novell NetWare e o sistema de BBS PCBoard. Um sistema de verdade resolvendo um problema comercial de verdade — o exato ponto em que o hobby, o ofício e a profissão finalmente viraram uma coisa só.

O mesmo período trouxe o outro rito de passagem da era: o bip. De 1995 ou 1996 em diante, Rodolfo carregava um pager da Teletrim — a primeira vez na vida em que o mundo podia encontrá-lo em movimento. O protocolo era gloriosamente manual: alguém ligava para o serviço, falava a mensagem a uma operadora humana, e a operadora transmitia o texto ao bip do destino. Cada número de retorno, cada mudança de planos, cada recado não exatamente destinado a terceiros ouvidos passava antes pelo fone de uma estranha. As operadoras de São Paulo devem ter ouvido tanta coisa — e, há de se supor, guardado quase tudo.

Um guia de campo de um mundo desaparecido

O vocabulário da época, para quem chegou depois dela. Três destes abrem no glossário, onde a linhagem do phreaking telefônico está documentada por inteiro.

O BBSBulletin board system (BBS)Um computador com um modem atendendo uma linha telefônica, um visitante por vez. A internet comunitária antes da internet: murais de mensagens, bibliotecas de arquivos e jogos, tudo alcançado ao discar um número de telefone.
O BBSSysopSystem operator — a pessoa que rodava um BBS a partir da própria casa: anfitrião, moderador, bibliotecário e técnico de manutenção de um pequeno mundo com um número de telefone no lugar de um endereço.
A linhaBaud e o handshakeA velocidade do modem, a partir de 300 baud. O chiado que você ouvia ao conectar eram dois modems negociando em tempo real — um ritual tão familiar que os donos distinguiam de ouvido uma boa conexão de uma ruim.
A telaArte ANSIImagens e menus desenhados inteiramente com caracteres de texto colorido, usando códigos de escape ANSI. A linguagem visual do BBS: logotipos, bordas e telas cheias de arte, tudo feito de letras e símbolos.
A telaDoor gameUm jogo que rodava no próprio BBS, jogado turno a turno contra os outros usuários — você fazia suas jogadas, desligava, e outro fazia as dele. A cidade inteira competindo no mesmo BBS, um dia de cada vez.
A linhaFidoNetUma rede store-and-forward ligando BBSs pelo mundo. Cada BBS discava para os vizinhos de madrugada para retransmitir mensagens que saltavam de BBS em BBS pelo globo — um e-mail amador que se movia enquanto todos dormiam.
O arCartão QSLUm cartão-postal enviado entre radioamadores para confirmar que um contato realmente aconteceu. A prova, pelo correio, de que dois desconhecidos haviam se falado em uma dada frequência — o mesmo formato de mensagem-encontra-desconhecido que o mundo dos BBSs repetiria depois.
O telefoneOrelhão e fichasO telefone público brasileiro e as fichas que você enfiava nele para fazer uma ligação. O hardware do dia a dia que o folclore do phreaking de pátio tentava, sem parar, driblar.
O telefonePhreakingExplorar e dobrar a rede telefônica por pura curiosidade sobre como ela funcionava. O ancestral, no sistema telefônico, do hacking de computador — nascido uma década antes de a maioria ter um computador para hackear.No glossário →O telefoneBlue boxUm aparelho que gerava os tons de controle em que a antiga rede de longa distância confiava — o mais famoso deles, o tom de 2600 Hz — para tomar uma linha e rotear chamadas de graça. A sinalização in-band fazia a rede acreditar em qualquer um que soubesse produzir o som certo.No glossário →
O telefoneWar-dialingUm modem programado para discar automaticamente por faixas inteiras de números de telefone, anotando quais respondiam — um modem, um fax ou um PBX. Batizado a partir do filme WarGames (1983), era a metade de reconhecimento do phreaking: mapear a rede para descobrir o que havia por lá.
A redeConta shell (SLIP / PPP)O acesso à internet mais antigo, por linha telefônica: um login de texto em uma máquina UNIX remota, às vezes turbinado com SLIP ou PPP para carregar tráfego de internet de verdade. A porta do mundo fechado dos BBSs para a rede aberta.
A redeSLIP & PPPSerial Line Internet Protocol e Point-to-Point Protocol — os dois encapsulamentos que transformam uma linha discada comum em um enlace de internet de verdade, carregando pacotes IP pelo fio do telefone: a diferença entre digitar na máquina UNIX de outra pessoa e o seu próprio computador estar na internet. O SLIP veio primeiro e se manteve mínimo; o PPP o sucedeu com negociação e detecção de erros. O programa compilado na conta shell em 1993 falava exatamente isso.
A redeNCSA MosaicO navegador que tornou a Web visível: lançado em 1993 pelo NCSA — o National Center for Supercomputing Applications, da Universidade de Illinois — foi o primeiro navegador amplamente usado a colocar imagens junto ao texto e a rodar nos sistemas domésticos comuns da época. Um vislumbre por ele e a internet só-texto ganhou um rosto; sua jovem equipe logo saiu para construir o Netscape.
O cintoBip (pager)Um receptor de rádio unidirecional numa rede de broadcast — sem transmissor, sem subida, só um código de identidade e o que a torre mandasse. O serviço clássico punha uma operadora humana entre quem ligava e o bolso: sua mensagem, lida em voz alta a uma estranha, digitada para o ar. Alcançabilidade antes do tempo real.No glossário →

No fim de 1995 a base estava montada, e nunca tinha sido realmente sobre os truques. Era sobre o hábito por baixo deles — desmontar uma coisa até entendê-la de verdade, e então explicá-la para quem vem depois. Os crachás de fabricante, as certificações, as salas de aula em quatro continentes: tudo isso foi construído sobre um adolescente com um Sinclair clonado, um ferro de solda, um tom de discagem roubado e uma vontade desmedida de saber como tudo funcionava. A própria linha telefônica ainda tinha um último compromisso com ele. Em 1999, naquela mesma casa, ele se tornou um dos primeiros assinantes de ADSL da Telesp: 256 kbps sobre o par metálico que a família sempre teve — mas conectado em tempo integral, pela primeira vez, sem sequestrar a linha do telefone. Estar online deixou de ser um evento; o cobre que racionava o BBS um usuário por vez agora carregava a internet continuamente, e aquele zumbido sempre-ligado foi o começo definitivo do fim do POTS. Ele ainda mora naquela casa. Hoje ela é conectada por DOCSIS 3.1 sobre a planta de cabo, por fibra até em casa, e por uma constelação em órbita baixa — quatro últimas milhas de profundidade, no endereço onde um dia uma linha de telefone tinha que bastar.