O ano em que todo mundo foi para o remoto
2020 é lembrado como o ano em que o mundo aprendeu a trabalhar por uma webcam. Para mim foi isso também, mas foi principalmente outra coisa: o ano em que algo que estivera à margem de todo emprego que tive se mudou para o centro e virou o emprego inteiro.
Eu ensinava desde 1997. Não como profissão — como a parte do trabalho que ninguém colocava na descrição da vaga. Internetworking na Cabletron, roteamento na Riverstone, comutação e controle de acesso na Enterasys, JUNOS na Juniper, e depois cinco anos de reuniões, apresentações, demonstrações, workshops e bootcamps para os parceiros e clientes de um fabricante, de dentro da distribuição. Esse último trecho é o papel descrito em o que faz um engenheiro de sistemas de canal: você apoia as revendas em vez dos clientes, e boa parte do que faz é explicar um produto a quem tem por ofício vendê-lo e implantá-lo.
Então quando digo que 2020 foi o primeiro ano de docência, não quero dizer a primeira vez que ensinei. Quero dizer o primeiro ano em que era o trabalho, e não um efeito colateral do trabalho.
O número, e o que ele esconde
O ano, contado:
- 1 curso assistido como aluno
- 6 habilitações de instrutor, cobrindo 9 cursos
- 13 cursos ministrados, em 33 dias
- 264 horas diante de 51 alunos
Trinta e três dias. Num ano de uns duzentos e cinquenta dias úteis, a entrega em si ocupou cerca de um oitavo do calendário. Uma pessoa razoável olhando para isso concluiria que tive um ano tranquilo.
O que os trinta e três dias escondem é para onde foi o resto.
Você não ensina um curso que não passou
Habilitar-se a ministrar um curso oficial não é receber uma permissão. Para cada curso, três coisas precisam acontecer, nesta ordem:
- Assistir ao curso como aluno. Ele inteiro, como participante, na sala de outra pessoa.
- Ter a certificação para a qual o curso prepara. Não prestar a prova — passar nela.
- Passar pela qualificação de instrutor daquele curso específico, na qual você ensina o material a pessoas cujo ofício é decidir se você deve ser autorizado a ensiná-lo.
Só então você pode ficar diante de uma turma pagante e abrir os slides.
Fiz isso seis vezes em 2020, e essas seis habilitações cobriram nove cursos. Seis vezes: assistir, certificar, provar. Foi para aí que o ano foi, e é por isso que treze turmas em trinta e três dias não é um ano leve, e sim um ano comprimido — tudo que está rio acima da entrega é invisível na contagem de entregas.
Quero ser claro sobre por que acho essa exigência correta, porque ela é incomum. Ninguém obriga um palestrante de congresso a se certificar naquilo que apresenta. Ninguém audita os slides de um consultor. Mas um curso oficial carrega o nome de um fabricante e prepara pessoas para uma prova que aquele fabricante vai corrigir, e quem está na frente é o único controle de qualidade da sala. Exigir que essa pessoa tenha feito a mesma prova é a maneira honesta mais barata de garantir isso. É também, de quebra, um jeito muito eficaz de descobrir o que você só achava que sabia: a distância entre operar um produto por uma década e conseguir responder a uma pergunta qualquer sobre ele, feita por uma sala de desconhecidos, é maior do que qualquer um imagina antes de tentar.
O que uma sala de aula remota realmente exige
A outra coisa que 2020 ensinou é que "instrução remota" não é uma webcam com slides. Montar-se para ministrar um curso técnico ao vivo por uma tela exigiu quatro monitores, e cada um existe porque algo específico falha sem ele:
- O material do curso, compartilhado com a turma. Óbvio, e o único que alguém imagina.
- As anotações do apresentador, em tela separada. Não a muleta que você talvez esteja imaginando — são os lembretes do que não pode ser pulado num curso de quatro dias em que cada módulo se apoia no anterior.
- A janela da conferência, sozinha, para que a sala e seus participantes possam ser vistos e conduzidos sem cobrir o material. Quinze rostos numa grade, mãos levantando, alguém caindo da chamada.
- Uma estação logada no laboratório remoto, porque os alunos trabalham em máquinas virtuais e alguém precisa conseguir ver e consertar o ambiente enquanto a aula continua.
Mais uma mesa digitalizadora, porque desenhar sobre o slide é melhor do que descrever o desenho. Qualquer coisa que eu arraste para aquela tela, a turma vê. Numa matéria feita de caminhos de pacote e ordens de decisão, esse acabou sendo o dispositivo de entrada mais valioso da sala.
E então a parte da lista de que sempre gostei mais, que anotei na época exatamente como era: muita água, ventilador, cadeira ergonômica, café, e raquete anti-pernilongos.
O último item não é piada, e não é enfeite. É São Paulo, é uma aula longa à noite para um fuso do outro lado do mundo, e um pernilongo na sala na sexta hora de um curso de quatro dias é um risco operacional de verdade. Todo instrutor remoto tem um objeto equivalente. Ninguém põe isso na ficha técnica.
Do que a contagem é evidência
Números assim costumam ser publicados para impressionar, e não tenho certeza de que deveriam. Duzentas e sessenta e quatro horas não é um número grande isoladamente; há instrutores que entregam isso num trimestre. Cinquenta e um alunos é uma turma pequena.
Do que ele é evidência é de uma transição, e transições valem ser contadas justamente porque são os momentos em que o formato de uma carreira muda e ninguém percebe na hora. Já escrevi que o valor de uma década num fabricante nunca foram os produtos, porque produtos ficam obsoletos e as plataformas específicas que dominei nos anos noventa hoje são arqueologia. O valor era o formato. 2020 é o ano em que o formato ficou visível: tudo antes dele tinha sido preparação para um trabalho que eu ainda não tinha assumido.
Os cinco anos de capacitação de parceiros dentro da distribuição foram, no fim das contas, um estágio para um papel para o qual ninguém estava me treinando. As certificações obtidas para vender e sustentar um produto acabaram sendo o bilhete de entrada para ensiná-lo. E os vinte e três anos explicando coisas à margem de outros empregos acabaram sendo a habilidade em si, que eu vinha praticando o tempo todo acreditando ser um passatempo que acontecia no trabalho.
Essa é a coisa útil a se tirar de um ano contado, e não é a contagem. É que a parte do seu trabalho que você faz porque gosta, nas margens, sem ninguém pedir, frequentemente é a parte que acaba sendo o trabalho. A minha levou vinte e três anos para sair da margem e chegar ao centro. Olhando o que os anos anteriores construíram, não acho que pudesse ter sido mais rápido, e não gostaria que a contagem fosse maior às custas do que está atrás dela.