O defeito

Começou como uma economia sensata. Armazenamento e memória eram caros, e um ano podia ser escrito em dois dígitos em vez de quatro. Um programador em 1970 que escrevesse 74 em vez de 1974 poupava bytes em cada registro, em máquinas onde bytes eram a restrição que importava, e tinha toda razão de supor que o programa seria substituído muito antes de aquilo importar.

Os programas não foram substituídos. Aritmética de datas está em toda parte no software de negócios - juros, vencimento de contrato, elegibilidade de aposentadoria, validade de estoque, ciclos de faturamento - e tudo isso é subtração. Subtraia 99 de 00 e você obtém menos noventa e nove anos. Um empréstimo vence no passado. Uma pessoa de noventa anos tem menos dez. Um item perecível venceu há um século ou nunca vencerá.

Isso não é contestado por ninguém, e vale enunciar antes de a discussão começar, porque a discussão não é sobre se o defeito existia.

Quanto se gastou

As estimativas variam muito, e é mais honesto dar a faixa do que escolher um número. Peter de Jager, que fez mais que ninguém para dar o alarme, estimou em 1993 que consertar aquilo no mundo custaria de cinquenta a setenta e cinco bilhões de dólares. Ficou muito abaixo. Só os Estados Unidos são estimados em cerca de cem bilhões, incluindo oito bilhões e meio do governo federal, pela contabilidade do Departamento de Comércio. Os totais mundiais na literatura vão de trezentos bilhões a seiscentos bilhões de dólares, conforme quem contou o quê.

Então a meia-noite chegou, e quase nada aconteceu. Um homem em Nova York recebeu uma multa de atraso de locadora de noventa e um mil dólares. Falhas menores foram corrigidas. A infraestrutura sobre a qual todos tinham sido avisados continuou funcionando.

A tese cética, no seu ponto mais forte

É fácil caricaturar os céticos como gente que não entende como se parece um desastre evitado. É mais útil, e mais honesto, enunciar seus melhores argumentos direito, porque dois deles são fortes.

O medo dos sistemas embarcados estava substancialmente errado. Com algo entre sete e quarenta bilhões de microcontroladores no mundo - as próprias estimativas variavam enormemente - as projeções iniciais sugeriam que dois a três por cento poderiam falhar na virada. No fim de 1999 esse risco fora revisto para cerca de um milésimo de um por cento, e mesmo isso provavelmente era alto demais. Uma revisão de aeronaves comerciais não achou nenhum sistema essencial sensível a data. Foi essa a parte do pânico que levou gente a comprar geradores e estocar comida, e ela não sobreviveu ao contato com os testes.

E então há a Itália. A Itália tinha muitos computadores e um esforço de remediação visivelmente atrasado em relação ao americano, e seus problemas em 1º de janeiro de 2000 não foram piores que os de ninguém. A refutação usual - que países menos preparados simplesmente tinham menos computadores - não se aplica à Itália, e esse é o fato mais duro contra a tese de que o gasto era necessário na escala em que aconteceu. Cerca de um terço das pequenas empresas americanas não fez preparação nenhuma, e também ficou quase tudo bem.

A tese a favor do trabalho, também no seu ponto mais forte

O defeito era real e demonstrável. Não era um risco teórico sendo modelado; era código que se podia rodar num ambiente de teste com o relógio adiantado, produzindo respostas erradas sob demanda. As organizações acharam as falhas antes de a data chegar porque foram olhar. É uma posição epistêmica materialmente diferente da da maioria das previsões de desastre.

As falhas que ocorreram se concentraram em sistemas que ninguém tinha consertado. É o padrão que se esperaria se a remediação tivesse funcionado, e é a razão de os profissionais insistirem depois que o silêncio era o resultado e não a refutação.

E as maiores instituições eram também as mais expostas. Bancos, seguradoras, concessionárias e governos rodavam o código de aritmética de datas mais antigo na maior escala, e foram os que mais gastaram. Se os últimos cem bilhões eram necessários é discutível; se um sistema bancário global rodando COBOL dos anos 1970 sem exame pela virada ficaria bem é uma aposta que ninguém quis fazer.

O que não se resolve, e por que é esse o ponto

Não há experimento. O mundo em que o dinheiro não foi gasto não existe para comparação, e a Itália é um país, não um grupo de controle. Quem lhe disser que a resposta está resolvida - em qualquer direção - está lhe falando das próprias premissas.

Essa incerteza irredutível é o verdadeiro assunto deste artigo, porque é a condição diária do trabalho de segurança e de operações. Uma prevenção bem-sucedida não produz evidência de si mesma. A recompensa pela correção que impediu o surto, pela segmentação que conteve a intrusão, pelo backup que nunca foi preciso, é uma linha de orçamento que no ano seguinte parece injustificada. A era dos worms mostra a outra metade da mesma moeda: nove anos de surtos cujos consertos existiam e não foram aplicados, porque aplicá-los custava algo e não aplicá-los parecia, até a manhã em que deixou de parecer, não custar nada.

O é a maior instância já registrada de uma indústria ser convidada a gastar com base numa previsão, gastar, e então ser perguntada por que se incomodou.

O que um profissional deve tirar disso

Torne a falha demonstrável, não teórica. A única força genuína da tese do Y2K era que dava para mostrar. Um sistema de teste com o relógio adiantado produzia o número errado na frente do diretor financeiro. Quem argumenta por um orçamento de segurança deveria procurar o equivalente: não um relatório de ameaças, mas este sistema, neste laboratório, fazendo esta coisa errada.

Ajuste o medo à evidência. O pânico dos sistemas embarcados fez enorme dano à credibilidade de quem estava certo sobre os mainframes, e fez isso porque as alegações passaram do que os testes sustentavam. Estar certo sobre a parte importante não protege de estar ruidosamente errado sobre uma parte adjacente, e o público lembra da segunda.

Não espere crédito, e diga isso de antemão. O jeito honesto de pedir dinheiro de prevenção é declarar desde o início que o sucesso será indistinguível de o problema nunca ter existido, e acordar de antemão que evidência contaria. Essa conversa é desconfortável e é muito melhor tê-la antes do gasto do que depois.

E repare no que o dinheiro de fato comprou. Boa parte do gasto do Y2K foi em sistemas que já estavam atrasados para substituição, e as organizações saíram dele com um inventário documentado do próprio software - em muitos casos o primeiro que já tiveram. O problema de 2038 é a mesma classe de defeito chegando com décadas de aviso, e está sendo tratado em silêncio, com antecedência, por gente que também não vai receber crédito.

Fontes