Gambiarra
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Substantivo feminino. Solução improvisada com o que estiver à mão — precária, fora do padrão, e funcionando. A palavra carrega admiração e reprovação ao mesmo tempo, e o brasileiro ouve as duas.
A palavra começou literal. No teatro do século XIX, gambiarra era a fileira de lâmpadas suspensa acima da ribalta, que ilumina a cena de frente e mata as sombras; o sentido de dicionário é uma extensão elétrica improvisada, um fio longo com uma lâmpada na ponta, levada até onde a luz fosse necessária. Como isso virou o sentido moderno é onde os relatos param de concordar: um diz que os atores tropeçavam na fiação até a palavra azedar, outro que instalações realmente malfeitas foram levando o nome por associação. A etimologia também é disputada — o filólogo Antenor Nascentes propôs gâmbia, tomado do italiano gamba, perna, com o sufixo aumentativo e por vezes depreciativo -arra, e formulou o próprio raciocínio como pergunta: porque a luz dá nas pernas dos atores? A palavra também significa ligação clandestina de energia e, em certos registros, caso extraconjugal.
Na tecnologia a palavra chegou inteira. Gambiarra é o túnel SSH que está de pé há três anos, o cabo bacalhau feito à mão, o laço que existe porque o recurso do fabricante não existe, o clipe de papel no furo de reset. Programadores brasileiros cunharam POG, programação orientada a gambiarra, que é uma piada que todo mundo já colocou em produção. As palavras vizinhas dividem o terreno: quebra-galho é o paliativo, remendo é o conserto, jeitinho é a manobra social e não a física, e gato é especificamente a ligação clandestina. O que nenhuma palavra inglesa carrega é a carga dupla. Kludge e bodge são ofensas; hack é elogio; jury-rig é neutro e náutico. Gambiarra é as três coisas ao mesmo tempo, e o orgulho é real: a coisa funciona, não custou nada, e alguém inteligente a fez sob restrição. Os parentes mais próximos estão fora daqui — jugaad na Índia, que os pesquisadores de informalidade da Universidade de Oxford colocam na mesma família do jeitinho brasileiro, système D na França e na África Ocidental, desenrascanço em Portugal, костыль (uma muleta) na revisão de código em russo, houtje-touwtje no neerlandês, atar con alambre na Argentina. Cada um guarda uma parte do sentido e abre mão de outra. É por isso que a palavra fica em português neste site, em todos os idiomas: traduzi-la seria a primeira gambiarra.
Contestado / frequentemente mal contado Uma versão popular desta história é imprecisa - veja a nota acima.
Também conhecido como: gambiarras, bacalhau, cabo bacalhau, quebra-galho, POG, programacao orientada a gambiarra, jeitinho, desenrascanco, jugaad, kludge, bodge, kostyl, systeme D
Fontes
- Antenor Nascentes, cited in the Portuguese-language reference literature, deriving gambiarra from gambia, borrowed from the Italian gamba (leg), with the augmentative and sometimes pejorative suffix -arra
- Michaelis dictionary, on the original sense: an improvised electrical extension, a long wire with a lamp at the end, used to bring light to different points - and in theatre, lamps hung above the footlights
- Canaltech on the competing accounts of how the theatre lighting sense became the improvisation sense, none of which linguists agree on
- Global Informality Project, University of Oxford, on jugaad and its relatives, naming the Brazilian jeitinho and the West African systeme D as members of the same family