Abril de 1999
A certificação mais antiga que eu tenho não está na página de credenciais deste site. É uma carteirinha PADI Open Water, emitida em 25 de abril de 1999 por uma escola de mergulho no Moema, aqui em São Paulo. Ela antecede meu primeiro CCNA em cerca de um ano.
A página de credenciais é trabalho cuidadoso. Cada entrada tem emissor, quase todas têm datas, muitas têm link de verificação, e uma checagem de build garante que nenhuma afirme algo que a evidência não sustenta. Esse cuidado é o propósito dela: quem está decidindo se me põe na frente dos seus engenheiros precisa poder conferir.
Mas uma página construída para responder a uma pergunta responde só àquela pergunta. É um argumento sobre competência num domínio específico, deliberadamente estreito, e tudo fora do domínio é invisível nela por projeto. Isso está certo, e também vale ser dito em voz alta de vez em quando, porque uma pessoa não são seus atributos filtráveis e uma carreira não é a lista de coisas que um banco de dados consegue verificar sobre ela.
O que o mergulho e uma janela de mudança têm em comum
Aqui está a parte que não é sentimental.
O mergulho recreativo é uma disciplina feita quase inteiramente de decisões tomadas antes de você estar em posição de precisar delas. Você planeja o mergulho e mergulha o plano. Você combina uma pressão de retorno — o ponto em que se volta independentemente de quão interessante aquilo tenha ficado — antes de entrar na água. Você confere o equipamento do seu parceiro e ele confere o seu, na superfície, onde conferir é fácil. Você sabe sua profundidade máxima e sua velocidade de subida de antemão, porque o momento em que você vai precisar desses números é exatamente o momento em que estará menos apto a calculá-los.
Cada uma dessas coisas está nas cinco práticas que este site argumenta que os casos de falha exigem: uma linha de base tirada antes de precisar dela, um rollback combinado enquanto todos estão calmos, um limite definido de antemão e respeitado quando é inconveniente, uma verificação feita por uma segunda pessoa, uma fronteira que não depende de as coisas darem certo.
Eu não aprendi isso no mergulho e depois apliquei em redes. Aprendi os dois mais ou menos ao mesmo tempo, no começo dos meus vinte anos, e levei outras duas décadas para perceber que eram a mesma ideia. Quem me ensinou a planejar um mergulho e quem me ensinou a não mexer num firewall de produção numa sexta à tarde estavam fazendo o mesmo argumento sobre o mesmo tipo de risco, e nenhum dos dois mencionou o outro.
Por que ela fica fora da página
Porque a página de credenciais tem um trabalho e não é esse. Pôr uma carteirinha de Open Water entre uma certificação de solution expert da F5 e uma trilha da Fortinet não deixaria a página mais calorosa, deixaria menos útil, e quem está conferindo se eu sei ensinar firewall de aplicação web para a equipe dele teria de ler passando por cima dela.
Então a carteirinha mora aqui, num post, onde o contexto pode ser explicado em vez de insinuado por uma linha numa tabela.
E a razão de eu mencionar isso é a mesma que dei quando pus a carteirinha online pela primeira vez, e que ainda acho o melhor conselho deste site inteiro: saia por aí e brinque. Quase tudo que eu sei que acabou importando, aprendi fazendo algo que obviamente não era o meu trabalho — nas faixas de rádio quando criança, nos BBS quando adolescente, embaixo d'água aos vinte e três. Nada daquilo foi estratégico. Parte daquilo virou o alicerce inteiro.
As certificações daquela página são reais e trabalhei por cada uma. Mas se você está no começo disso e olha a lista se perguntando como construir uma parecida, a resposta honesta é que a lista é o resíduo e não o método. O método foi curiosidade que não conferiu antes se ia dar dinheiro.