O fracasso mais instrutivo da história da web não foi técnico. O tinha o melhor índice, o melhor rastreador e o melhor hardware, e perdeu mesmo assim.
Era um benchmark
Em 1995 a DEC preparava seus sistemas Alpha de 64 bits, e eles eram rápidos o bastante para que os benchmarks padrão da época não os estressassem de forma significativa. Não se mede um furacão com um catavento.
Paul Flaherty, pesquisador da DEC, esboçou uma resposta durante as férias: parar de usar testes sintéticos e apontar um rastreador para a World Wide Web, que era caótica, imprevisível e crescente. Ele não estava tentando organizar a informação do mundo. Queria uma carga grande o bastante para quebrar as próprias máquinas.
Louis Monier escreveu o rastreador, chamado Scooter. Michael Burrows escreveu o indexador. Foi lançado em 15 de dezembro de 1995 com dezesseis milhões de documentos indexados — número extraordinário então — oferecendo busca em texto completo com operadores booleanos e consultas em linguagem natural, numa época em que a principal alternativa era um diretório mantido à mão.
Foi de imediato a melhor coisa disponível. Em 1996 era o provedor exclusivo de busca do Yahoo, que ele próprio começara como diretório.
O que inventou pelo caminho
O , primeiro serviço de tradução automática da web, batizado com o nome da criatura de O Guia do Mochileiro das Galáxias que traduz qualquer idioma ao ser colocada no ouvido. Sobreviveu ao seu criador, e seus descendentes ainda rodam.
Como foi perdido
A propriedade mudou de mãos quatro vezes em cinco anos, e cada dono queria que ele fosse outra coisa.
A Compaq adquiriu a DEC em 1998 por US$ 9,6 bilhões, então a maior aquisição de tecnologia da história. O AltaVista veio junto no negócio, e por vários relatos executivos da Compaq não sabiam que ele existia. A Compaq então pagou mais US$ 3,3 milhões pelo domínio altavista.com, que alguém sem relação registrara em 1994.
Aí veio a decisão que importou. A Compaq reconstruiu o AltaVista como portal — compras, e-mail gratuito, notícias, diretórios — para competir com o Yahoo. O raciocínio era da época: portais pareciam ser onde estava o dinheiro. O efeito foi que o melhor buscador da web passou a competir em tudo, menos em buscar.
Em junho de 1999 a Compaq vendeu 83% à CMGI por cerca de US$ 2,3 bilhões em ações. A oferta pública prevista para abril de 2000 foi cancelada quando a bolha estourou. Em 2002, depois de demissões e trocas de gestão, o AltaVista havia removido os recursos de portal e voltado à qualidade da busca — bom trabalho, chegando depois de o Google ter tomado o mercado.
Em fevereiro de 2003 a Overture o comprou por US$ 140 milhões, cerca de seis por cento da avaliação de três anos antes. O Yahoo adquiriu a Overture cinco meses depois. Em 2004 o Scooter e o motor de ranqueamento original foram desligados e o AltaVista virou fachada para os resultados do Yahoo — a marca ainda lá, nada da máquina por trás. O Yahoo o desligou em 8 de julho de 2013.
O que de fato deu errado
Não foi a tecnologia. O índice era excelente, o rastreador era excelente, e o hardware era o mais rápido disponível.
O que deu errado é que ninguém que o possuiu quis que ele fosse um buscador. A DEC o construiu para vender Alphas. A Compaq queria um portal. A CMGI queria uma abertura de capital. A Overture queria inventário de anúncios. O Yahoo queria um concorrente fora do caminho.
A vantagem do Google não foi apenas o . Foi ser uma empresa cujo propósito inteiro era aquilo em que o AltaVista era melhor, no momento em que os donos do AltaVista decidiram que aquilo era pouco interessante.
Por que isso cabe num site de redes
Porque o padrão se repete, e vale reconhecê-lo cedo. Um produto que lidera sua categoria é adquirido; o comprador tem estratégia própria; o produto é reposicionado rumo a essa estratégia; aquilo em que ele era melhor vira recurso de algo maior; um concorrente focado toma o mercado.
As páginas de linhagem deste site estão cheias disso. Vale saber como isso se parece por dentro, e o AltaVista é o exemplo mais limpo que a indústria tem.
O que quem estuda precisa saber de cor
O AltaVista foi construído nos laboratórios da DEC em Palo Alto para gerar uma carga pesada o bastante para estressar os processadores Alpha, lançado em 15 de dezembro de 1995 com dezesseis milhões de documentos, e oferecia busca booleana em texto completo quando a alternativa era um diretório feito à mão. Flaherty teve a ideia, Monier escreveu o rastreador, Burrows escreveu o indexador. Entregou o Babel Fish, primeiro serviço de tradução da web. A Compaq o adquiriu junto com a DEC em 1998, transformou-o em portal, e vendeu a maioria à CMGI por cerca de US$ 2,3 bilhões; a Overture o comprou em 2003 por US$ 140 milhões e o Yahoo o desligou em 2013. A tecnologia nunca falhou — nenhum dono quis que ele fosse um buscador, e um concorrente que queria tomou o mercado.