# DEF CON: uma festa de despedida que virou instituição, e as camisas vermelhas que a sustentam

> Começou em 1993 como festa de despedida para a rede de BBS de um amigo. Trinta anos depois enche Las Vegas com dezenas de milhares de hackers, roda com dinheiro vivo na porta, e é mantida de pé por voluntários não remunerados de camisa vermelha que pagam do próprio bolso para estar lá. Os Goons são a razão de aquilo funcionar, e a razão de ainda parecer comunidade em vez de feira de negócios.

Source: https://ronutz.com/pt-BR/learn/defcon-culture-and-the-goons  
Updated: 2026-08-28

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## A festa que não terminou

Em 1993 **Jeff Moss** - Dark Tangent - planejou uma despedida em Las Vegas para um amigo que deixava o país, e para a rede de BBS que os dois tocavam. O amigo foi embora antes; a festa aconteceu assim mesmo, com umas cem pessoas. Aquele acidente virou a **DEF CON**, e hoje atrai dezenas de milhares a cada verão.

As decisões de desenho tomadas naqueles primeiros anos são a razão de ela nunca ter virado uma feira comum. **Dinheiro vivo na porta, sem cadastro** - não há base de participantes para intimar, vazar ou vender. Uma rede deliberadamente hostil sobre a qual todos são avisados a nunca confiar. E uma cultura de concursos em vez de palestras magnas, para o centro de gravidade ficar com quem faz coisas, não com quem anuncia coisas.

Sua irmã comercial, a **Black Hat**, fundada por Moss em 1997, existe para que a mesma pesquisa seja apresentada a gente cujos empregadores precisam de nota fiscal. O par é o compromisso honesto da indústria: um evento que você lança como despesa, e outro que não.

## Os Goons

Nada num encontro desse tamanho funciona sozinho. **Os Goons** são a equipe voluntária da DEF CON, identificáveis pelas **camisas vermelhas**, e são a estrutura que sustenta o evento inteiro.

Vale descrever o papel com precisão, porque é rotineiramente confundido com emprego. Goons **não são pagos**. Compram as próprias passagens, pagam os próprios quartos e, na maioria dos anos, compram o próprio crachá - e então trabalham turnos punitivos ao longo de quatro dias. As posições são conquistadas, não candidatadas: goons saem de gente que já deu anos à comunidade, convidada para departamentos que cuidam de tudo, do balcão de informações e do A/V às operações de palestrantes, concursos e vilas, operações de rede e segurança.

O trabalho mais visível deles é a gestão de multidão, e é teatro com propósito. Uma fila de cinco mil pessoas entrando numa sala com limite de lotação é um problema real de segurança, e se resolve com alguém que tem voz e autoridade para usá-la, disposto a levar grito, disposto a ser o vilão por dez minutos para que ninguém se machuque. Os chamados de fila aos berros são famosos, às vezes engraçados, e inteiramente funcionais.

O trabalho menos visível importa mais. Os Goons transmitem as regras não escritas da conferência a quem as encontra pela primeira vez: o que não se fotografa, o que não se conecta, como o código de conduta é de fato aplicado, aonde ir se algo acontecer com você. Eles desescalam. Acham gente perdida. Lidam com emergências médicas, denúncias de assédio e os momentos em que uma reunião muito grande de humanos muito cansados dá errado. Uma convenção que se orgulha de desconfiar da autoridade é, na prática, sustentada por um grupo de voluntários em quem todos escolhem confiar - o que só é possível porque a confiança foi conquistada em público ao longo de anos.

É por isso que a camisa vermelha é tratada como honra e não como uniforme, e por que a frase *uma vez Goon, sempre Goon* significa algo específico para quem já vestiu uma.

## Concursos, vilas, crachás

A programação reflete os mesmos valores. O **Capture the Flag** é o esporte coletivo mais exigente do campo e a origem de uma disciplina inteira de treinamento. O **Wall of Sheep** projeta credenciais que fareja em claro na rede do evento - educação por constrangimento público, e um registro histórico discreto do avanço da criptografia, já que antes enchia em minutos e hoje pena. O **Spot the Fed** transformou a presença de agentes federais em jogo em vez de pânico, o que é uma conquista diplomática disfarçada de piada. Os **crachás** são quebra-cabeças de hardware com subcultura competitiva própria. As **vilas** - arrombamento, carros, aviação, urnas eletrônicas, biohacking - são onde áreas inteiras de pesquisa nasceram em público, o [hack do Jeep](https://ronutz.com/pt-BR/glossary/the-jeep-hack) e o trabalho sobre urnas entre elas.

## Para que serve a conferência

A DEF CON é onde as discussões do campo acontecem na mesma sala. [O L0pht apresentou aqui antes de o Senado chamá-los](https://ronutz.com/pt-BR/learn/l0pht-cdc-and-the-road-to-the-industry). O Cult of the Dead Cow lançou o Back Orifice deste palco. [Barnaby Jack fez dois caixas eletrônicos cuspirem dinheiro](https://ronutz.com/pt-BR/glossary/barnaby-jack) na irmã comercial e mudou uma indústria com uma única demonstração. Fabricantes já foram constrangidos aqui, carreiras começaram aqui, e pesquisadores foram presos aqui - Marcus Hutchins, a caminho de casa em 2017, entre eles, e é por isso que o conselho da comunidade sobre ter advogado não é paranoia.

Tire o neon e o ponto é simples: uma subcultura a quem se disse por duas décadas que era um problema policial construiu a própria instituição, tocou-a com trabalho voluntário e dinheiro vivo, e a fez boa o bastante para que governos hoje mandem gente escutar. As camisas vermelhas são como isso segue funcionando.
